rico-parergon
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Das tripas coração
domingo, 30 de novembro de 2014
Sylvia: La venganza nunca es buena...
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Meu pitaco de fácil leitura
Do que apareceu na imprensa, os únicos ditos que julgo razoáveis são os de José Miguel Wisnik, publicados n'O Globo, sob o título "Machado Copidescado", e de José Maria e Silva, no Jornal Opção (com este, tenho discordâncias, abordadas adiante). Wisnik faz um escrutínio linha a linha de algumas páginas, demonstrando a falta de metodologia de Secco, cujas simplificações são desnecessárias em alguns pontos e inexistentes em outros (que, caso houvesse alguma consistência metodológica, pediriam uma modificação). Maria e Silva chega apontar até inversões de sentido. Estes são os únicos argumentos de valor, os quais subscrevo, pelo menos quanto à formalidade do raciocínio: somente a má qualidade é que pode ser julgada.
Somente a má qualidade. As demais invectivas e protestos da mais profunda indignação estão, a meu ver, viciados de preconceitos e falsos dilemas. E estes apresentam-se (novamente) elencados na coluna de Sérgio da Costa Ramos de hoje, publicada no Diário Catarinense. Recebi-a por e-mail, em formato JPG, pois é conteúdo para assinantes. Coloco a imagem aqui:

Começarei pelo mais tolo: a "adulteração" da obra de Machado. Este já havia sido propalado pelos autores da petição online "Ministério da Cultura do Brasil: Impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa". O sofisma é montado por meio da sobreposição de duas coisas diferentes: a) uma lei para proteger a obra dos autores; b) uma mentira descarada.
Invoca-se a lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998:
Art. 24. São direitos morais do autor:
IV - o de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações ou à prática de atos que, de qualquer forma, possam prejudicá-la ou atingi-lo, como autor, em sua reputação ou honra;
§ 2º Compete ao Estado a defesa da integridade e autoria da obra caída em domínio público.
Art. 27. Os direitos morais do autor são inalienáveis e irrenunciáveis.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Esperança, Raiva, Saudade, Desesperação: Cartas de amor!
Eis que voltei, ó leitor! Adianto-te que hoje me dou a liberdade de te tratar por “tu”, parece mais cômodo ao escrever neste momento. Mas não acredites que isso diminui o infinito respeito que por ti nutro!
Hoje vamos de recomendação. Venho recomendar-te um livrinho que me caiu nas mãos, divertido, belo, inspirador: tudo o que um livro precisa ser. É de poesia e se intitula Cartas de Amor. A autora é Paola Rettore e contém colaborações de poetas, artistas plásticos e “performers”. É um livro bilíngüe, com textos em espanhol e português. Diria até trilíngüe, pois há um quê de “portunhol” em alguns passos. Ainda o acompanha um DVD, com vídeos das performances de Marcelo Kraiser.
O que farei aqui é o seguinte: vou mencionar passagens que tiveram grande significado para a humilíssima pessoa que aqui se dirige a ti, leitor. Assim, não afirmo que elas são o que há de melhor no livro, apenas indico os momentos que, a meu ver, corroboram as palavras da personagem de um filme de que gosto muito –que, claro, conheces, leitor–, O carteiro e o poeta: “a poesia não é de quem fez, mas de quem precisa dela” (essa é a idéia, pelo menos; não lembro literalmente...).
Nas Cartas de Amor lêem-se, se não todos, pelo menos quatro dos principais componentes da experiência do amor. Refiro-me, claro, ao amor, digamos, erótico, que envolve desejo, um tanto de possessividade, ciúmes... Quais os componentes? Hei de mencioná-los como em tópicos, e a ordem nada diz sobre a importância dos termos, ela é aleatória: Saudade, Esperança, Desesperação e Raiva.
Começarei pela Raiva, que é um sentimento expresso de forma muito divertida. A passagem que cito está na primeira Carta (sempre que o texto estiver em espanhol, acrescentarei uma tradução). Sabes, leitor, aquela reação diante de um afronta amorosa que parece ser “canonizada”, a famosa “vou-rasgar-todas-as-cartas&fotos”? Bem, a Carta em questão encontra uma alternativa muito do jocosa, indo um pouco além da simples destruição das fotografias:
Voy a romper todas tus cartas. Voy a cortar todos tus rostros que aparecen en las fotos. Voy a pegar una foto de una sandía, no, de una vaca en lugar de tu rostro. (...) Hoy por la mañana empecé a odiarte. Antes de despertar aún te amaba y soñé contigo y te parecías a Nicole Kidman. Pero ahora pienso en ti y te veo con la cabeza de vaca. Imagino que estás fumando con la cara de vaca y botando humo por la nariz de la vaca. MUUU. Vete, vete. MUUU.
[Vou rasgar todas as tuas cartas. Vou cortar todos os teus rostos que aparecem nas fotos. Vou colar uma foto de uma melancia, não, de uma vaca no lugar do teu rosto. (...) Hoje de manhã comecei a te odiar. Antes de acordar ainda te amava e sonhei contigo e parecias-te com a Nicole Kidman. Mas agora penso em ti e te vejo com a cabeça de vaca. Imagino que estás fumando com a cara de vaca e jogando fumaça pelo nariz da vaca. MUUU. Vai-te, vai-te. MUUU.]
Solução original, não é, caro leitor?
Passo agora para a Saudade. É uma das passagens que acredito ser das mais belas do livro, ainda que mantenha um pouco da jocosidade dessa aí encima. A palavra correta não é “bela”... é “terna” (de ternura). Esta se encontra na oitava Carta (segundo a contagem que eu mesmo inventei):
Hace ya 5 meses que no te veo. Ahora lo único que hago es bajar al puerto a ver si veo el barco en el horizonte. Nunca veo tu barco. Llegan los otros. Sin piernas, sin brazos, sin orejas, sin lengua, sin ojos, sin nariz. Yo espero que quando vengas, traigas tus piernas, tus brazos, tu lengua, tu nariz. Pero si tienes que elegir, trae tus orejas, tus piernas, tus ojos, si quieres deja tu lengua y tus piernas, pero sobre todo tus piernas para que no te vayas de nuevo.
[Faz já 5 meses que não te vejo. Agora o único que eu faço é descer até o porto para ver se vejo o barco no horizonte. Nunca vejo o teu barco. Chegam os outros. Sem pernas, sem braços, sem orelhas, sem língua, sem olhos, sem nariz. Eu espero que quando venhas, tragas as tuas pernas, teus braços, tua língua, teu nariz. Mas se tiveres que escolher, traz as tua orelhas, tuas pernas, teus olhos; se quiseres, deixa a tua língua e as tuas pernas, mas acima de tudo as tuas pernas, para que não vás embora de novo.]
Agora, passo para a Esperança. Esse sentimento é plasmado numa imagem dinâmica e estática ao mesmo tempo (creio que extática faz a síntese...): dois trens que se cruzam. Suscita o tempo no qual um afeto infinito pode ser trocado entre dois seres, estremecê-los por completo. Esperança, muita, é também o que se há de encontrar no arremate da carta, como verás, ó leitor! É a sexta carta e está em português:
Esta carta pode ser como olhares trocados a partir de dois trens na mesma estação.
Seguindo direções opostas.
Esta carta pode ser uma aposta de que os trens vão voltar ainda várias vezes.
Esta carta pode apostar que os dois, um em cada trem, ainda serão os mesmos de antes.
(...)
Em cada e toda letra, está esta carta.
Em toda palavra, afinal, espreita uma carta de amor.
Quem nunca procurou a Esperança no mais estúpido bilhete, na mais corriqueira mensagem de celular, no mais formal dos emails... nunca amou! Não é verdade, leitor?
Por último, a Desesperação. A imagem mais impactante, sem dúvida. Eu nunca tinha lido uma expressão tão exata para o sentimento a que se refere esta passagem. Admito não ser nada próximo dum leitor de poesia que mereça essa denominação. Mas atrevo-me a intuir a priori que nunca se cunhou expressão como essa! Está na quarta Carta:
Ahora pienso en ti. Pero no estás aqui. Las horas pasan. Las horas me pasan como hormigas en la cara, mientras pienso en ti.
[Agora penso
Céus, leitor! Formigas na cara! Certamente, algumas delas mordem! Alguém poderia me dizer que essa passagem deveria ser considerada expressão da Saudade, não da Desesperação. Mas eu discordaria. Uma coisa é ter saudade, querer alguém de volta. Outra é sentir o tempo da separação deste modo, a passar pela face como formigas; expressá-lo numa imagem que chega a ser paralela à da própria morte: ter a boca cheia de formigas. Talvez morrer de saudade seja isso: perder a luta contra o tempo de uma espera ou de uma separação, deixá-lo invadir-nos por completo, enfiar-se na boca, nos ouvidos, nos olhos... como formigas. O tempo me passa como formigas na cara: a Saudade passa a ser Desesperação, está-se prestes a morrer dela.
Por hoje é só, leitor. Li na ficha técnica do livrinho que a tiragem da edição é de apenas cem exemplares. Sinto-me possuidor de um tesouro por ser um dos cem afortunados a possuir um exemplar. Mas se o livro te interessou, encorajo-te a mandar-me um email. Eu escanerizo o livro, faço cópia do DVD, o que for preciso! De todos modos, vão os dados bibliográficos:
RETTORE, Paola. Pequenas navegações: cartas de amor. Ilustrado por Paula Rettore e Marcelo Kraiser. Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2008. 60p. + DVD: il. ISBN: 978-85-908778-0-6
Até a próxima!
Rico.Em tempo (09/02/2009):
Leitor!
Um dos co-autores do livro fez-me a mercê de comentar esta minha resenha! Indicou-me o blog onde se desenvolvem os trabalhos relacionados ao livro! Para que o endereço deste não fique escondido nos comentários à resenha, divulgo-o aqui:
http://pequenasnavegacoes.blogspot.com/
Saudações!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
O cãozinho de Schopenhauer

Tão peludo e tão velhinho!
Ao ver-Te triste e calado,
Pareces meu avozinho!..."
(Ernani Rosas)
Quem diria, ó leitor! Eis que voltei, antes ainda do ano acabar! Não poderia, –ó, não!-- terminar este ano de forma tão taciturna, postando-lhe o texto da última semana, tão desprovisto de esperança e mui melancólico.
Hoje, vamos de filosofia. Claro, peço-lhe que tenha piedade deste pobre sujeitinho que lhe escreve e não exija um tratado ou a última grande tese filosófica! Trago-lhe, sim, melhor dizendo, uma curiosidade filosófica. Evidentemente, representa uma curiosidade, antes, para mim, pois você, já o sei, há de conhecer o assunto de que trato. Meu intuito é, humildemente, lembrar-lhe da questão; quem sabe, estimulá-lo a catar na sua prateleira novamente as páginas de que lhe hei de falar.
Vamos, pois, dar um curtíssimo sobrevôo sobre os animaizinhos de Schopenhauer. Você haverá de ter notado certa predileção da minha parte por este filósofo. E esta existe, de fato. É que, na minha infinita ingenuidade, eu acredito e dou fé ao que ele expõe na sua ética, a Ética da Compaixão. Sim! Creio que se déssemos vazão à nossa compaixão –que, diz Schopenhauer, é um fenômeno universal–, teríamos um mundo melhor.
O leitor há de se lembrar do que há de mais conhecido acerca da doutrina de Schopenhauer: a essência de tudo o que há é Vontade, infinita, cega. E esta Vontade tem “graus de determinação”. Na medida em que esses graus tornam-se mais complexos, formas mais refinadas vão emergindo, das forças elementares da natureza aos seus seres mais acabados, estando no topo, o ser humano. Eis que, a partir de um dado ponto de complexificação, os seres começam a ter uma representação das coisas, passam a ter um mundo, a diferenciar o eu do não-eu, a individuar-se; passam, pois, a estabelecer suas relações com os fenômenos. Por isso, a frase tão conhecida, que dá título à principal obra do filósofo: O mundo como vontade e como representação. Não é que haja dois mundos, são apenas duas faces da mesma moeda: a essência do mundo é vontade, mas o que dele aparece para os indivíduos é representação, ou seja fenômeno, aquilo que se mostra. Como assim? Ora, como eu disse antes, tudo o que há é vontade, a mesma vontade, infinita e cega. Porém, a partir de determinado “grau de determinação” emergem seres que são capazes de intuir a diferença que há entre ele e as demais coisas que o rodeiam. Uma pedra não é capaz disso, mas, por exemplo, uma ameba o é: ela intui perfeitamente que há um outro próximo dela, que não é ela mesma, e que pode esticar os seus pseudópodes e englobá-lo para alimentar-se. A ameba já possui um mundo, por pobre que seja: está ela e o que ela pode englobar. Não é grande coisa, mas já é um mundo, já é representação, ela já lida com fenômenos. Mas! Mas! Mas! Ela, a ameba, como tudo o que há, é, na sua essência, vontade: a pedra, ela e o ser humano são, nada mais, nada menos, vontade. E o mundo, como aparece para a ameba, como aparece para o ser humano, com tudo delimitado (o eu, o outro, o espaço, o tempo etc.), é apenas fenômeno, ILUSÃO! Pois, somos todos, no âmago, na essência, vontade, a mesma vontade.
Pois bem! Sei que a minha exposição da doutrina foi demasiado curta e grosseira! Mas não posso ir muito longe nela, caríssimo leitor, porque, além de lhe estar fazendo uma repetiçãm de lhe estar fazendo uma repetiçe grosseira! Mas ndo delimitado (o eu, o outro, o espaço, o tempo etc) sno. Eis que, a partiro por demais enfadonha, tomar-me-ia muitíssimo tempo --bruto que sou!-- fazer uma descrição mais detalhada. De todos os modos, com o dito, basta para seguirmos! Na essência, tudo o que há é vontade, e a partir de certo "grau de determinação", os seres formados são capazes de intuir um eu do que é não-eu, ou seja, de ter uma individualidade. E eis que, se no topo dos "graus de determinação" está o ser humano, não muito antes estão outros animais, como, por exemplo, o macaco, o elefante e o cão. O que os distingue, segundo a diferenciação clássica que é adotada por Schopenhauer, é que o homem possui razão. E, pela razão, ele é capaz de, digamos, dispor do tempo: além de viver no presente, ele é capaz de "viver" o passado e contar com o futuro; em suma, ele possui uma consciência de si mais refinada. Mas, se isso parece uma grande vantagem, ainda não devemos cantar vitória! Lembre-se, leitor, que Schopenhauer ficou conhecido pelo seu pessimismo! O homem é o mais consciente dos animais, mas, por isso mesmo, é o que mais sofre; pois, como os animais, pode sofrer no presente --quando é agredido, quando tem fome etc.--, mas sofre também pelo passado e pelo futuro! Pela lembrança de uma humilhação, de um ente perdido, ou pelo castigo que haverá de sofrer por um ato recente, pelo diagnóstico de câncer que recebeu agora mesmo... O ser humano é, pois, o animal mais capaz de sofrimento! Ainda assim, não é o único que sofre: os animais supracitados também sofrem e compartilham conosco, pelo menos, um pouco da nossa capacidade de sofrimento. E é o esquecimento dessa nossa comunhão com os animais algo que causa profunda repulsa no nosso filósofo. Sim, leitor! Schopenhauer foi um grande amigo dos animais! E a sua doutrina, quando vertida em clave moral na sua dissertação Sobre o fundamento da Moral, reserva algumas linhas à defesa das inocentes criaturas que alguns seres humanos --muitos, na verdade...- fazem sofrer desnecessariamente. Devo confessar que um dia li algo desta defesa também n'O mundo como vontade e como representação, mas que --maldición!-- não consegui encontrar enquanto elaborava as presentes linhas. Conformo-me com a minha inépcia, e trato de mostrar-lhe a defesa com o que encontrei na mencionada dissertação.
Qual é, digamos, o ponto principal da defesa de Schopenhauer neste caso? Bem, ele deriva do centro da sua doutrina: a essência de tudo é vontade, e a aparente individualidade dos seres é uma ilusão: na sua representação, o cão que um malvado chuta é algo outro, o não-eu do agressor. Porém, do ponto de vista do mundo como vontade, o que temos é a mesma vontade negando a si mesma, vontade agindo sobre vontade. O agressor acredita que o sofrimento do cão nada tem a ver com ele, mas não sabe que ele e o cão são, na essência, a mesma vontade, e o sofrimento é de ambos. Agora, se o agressor, de repente, ouvindo os ganidos do pobre cãozinho, sentir um profundo arrependimento; se, diante da figurinha retraída e peluda sentir-se muito mal e, logo em seguida, a ela se dirigir e lhe fazer afagos --e até pedir desculpas--; se isso acontecer é porque tomou lugar aquilo a que Schopenhauer chamou de compaixão: a ilusão da representação é suspensa e o agressor se dá conta da sua comunhão com o agredido no sofrimento, dá-se conta de que o sofrimento do agredido é, no fim, sofrimento do agressor.
Ora, quem é incapaz de uma experiência assim, está incapacitado para a motivação moral por excelência e é, realmente, uma pessoa manca, kakethica, digna de comiseração. Também, de certo modo, digna de repulsa, como o são, aos olhos de Schopenhauer, aqueles que torturam e matam os animais sem a mais mínima distinção. Vamos, ó leitor, às palavras de Schopenhauer sobre o assunto!
"A compaixão para com os animais liga-se tão estreitamente com a bondade do caráter que se pode afirmar, confiantemente, que quem é cruel com os animais não pode ser uma boa pessoa. Também está compaixão mostra-se como tendo surgido da mesma fonte, junto com aquela virtude que se exerce em relação aos seres humanos. Assim, por exemplo, as pessoas sensíveis sentirão o mesmo remorso, o mesmo descontentamento consigo mesmas, ao ter a lembrança de que, num acesso de mau humor, esquentadas pela ira ou pelo vinho, maltrataram imerecida, desnecessária ou excessivamente seu cão, seu cavalo ou seu macaco, o que é sentido do mesmo modo que a lembrança da injustiça exercida para com os seres humanos, que se chama a voz da consciência punitiva. Lembro-me de ter lido que um inglês que numa caçada na Índia matara a tiros um macaco não pode esquecer o olhar que o animal lançou-lhe ao morrer e, desde então, nunca mais atirou em macacos."
Veja, leitor, a tese seguida do caso! Compaixão para com os animais e bom caráter andam juntos! E até o caçador é tomado de compaixão ao ver o sofrimento causado pelo seu ato! Agora, umas palavras de censura às línguas que insistem em afastar animais e humanos pelo uso de termos diferentes para os mesmos atos:
"(...) encontramos nos caminhos populares a peculiaridade de muitas línguas, especialmente a alemã, que têm palavras próprias para o comer, o beber, o engravidar, o parir, o morrer e para o cadáver dos animais, para não ter de usar as palavras que indicam aqueles atos feitos pelos seres humanos e para esconder, sob a diversidade das palavras, a completa identidade das coisas. O fato de que as línguas antigas não conheçam tal duplicidade das expressões, mas que, despreocupadamente, indiquem a mesma coisa com as mesmas palavras, mostra que aquele artifício lamentável é, sem dúvida, obra da fradaria européia, que, na sua profanação, não acreditava poder chegar suficientemente longe no negar e caluniar a essência eterna que habita todo animal."
Mais ainda, agora com uma pitada sobre o que expusemos sobre a doutrina do autor, somada a um certo impulso anti-judáico-ocidental (dirigido a um certo fisiologista chamado Rudolph Wagner):
"o essencial e o principal é o mesmo no animal e no homem, e aquilo que nos distingue não está no primário, no princípio, no arcaico, no ser íntimo, no âmago de ambos os fenômenos, que, como tal, tanto num como noutro, é a vontade do indivíduo, mas somente no secundário, no intelecto, no grau da força do conhecimento, que no homem, através da faculdade acrescentada de conhecimento abstrato, chamada razão, é incomparavelmente mais alto (...). Em contrapartida, o que é similar entre o animal e o homem é tanto psíquico como somático, deixando de lado mais comparações. A um tal desprezador de animais judaizado e ocidentalizado tem-se de trazer à memória o fato de que, do mesmo modo que ele foi amamentado por sua mãe, também o animal o foi pela dele."
E por último, a passagem de que mais gosto, pela ternura da imagem e porque me lembra um certo cãozinho que você mesmo, leitor, há de conhecer. O tom da expressão de Schopenhauer é de consternação, mas a idéia é muito bonita, ainda que também antiga, mas não perde o seu valor, que é eterno, pois se trata da fidelidade canina:
"Os antigos egípcios, cuja vida toda era consagrada a fins religiosos, punham nas mesmas sepulturas as múmias dos homens e a dos íbis, crocodilos etc.; mas, na Europa, é um horror e um crime o fato de um cão fiel ser enterrado junto do lugar de descanso do seu dono, onde ele, por vezes, esperou a sua própria morte por causa de uma fidelidade e de um apego que não são encontrados no gênero humano."
Que bonito, esse cãozinho que fica ali, sentadinho junto ao lugar do repouso derradeiro do seu dono! Não lembra o nosso queridíssimo Quincas Borba, o eterno cãozinho machadiano?! E, ora, quem diria? Nosso filósofo tão amoroso para com os animaizinhos!
Por ora é só, caríssimo leitor! Agora sim, despeço-me por este ano. Deixei-lhe, lá encima, um desenho --rabisco, melhor dizendo...--, que fiz enquanto matutava estas linhas e pensava no cãozinho de Schopenhauer.
Aufwiedersehen!
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Zonagônia, sua melodia
Ó leitor! Em que momento nos juntamos novamente! Há tempos que não nos encontramos, e verás que não venho em boa hora... Pode ser que depois d’hoje não queiras mais passar os olhos pelo que escrevo. Mas eis que insisto em cá pôr as linhas que seguirão, porque é o desejo que me move, de emanar os tormentos e lamúrios! Peço-lhe o perdão já de saída.
Eis que hoje vamos de... não sei bem o que é! Mas trata-se de algo como uma reflexão sobre a vida, sobre o andar dos dias, o passar do tempo e das coisas a que alguém é obrigado a aventar-se, por instinto ou por hábito adquirido das passadas gerações... ou realmente –segundo acredito– pelo desejo consciente de vivê-las, arriscar-se, esperançoso de bom sucesso!
Mas não é só dos meus miolos que retirarei o material que há de nos amparar na reflexão para a qual o convido, ó leitor! Pois encontrei a expressão perfeita do que eu queria dizer –coisa pasmante!– nas bocas de dois personagens de Rubem Fonseca, o grandioso mestre da prosa ultra-violenta contemporânea. Irei, leitor, encadear os dois arrazoados ao sabor da necessidade expressiva daquilo que hei de dizer hoje. Sem contar, por discrição, o que me leva a fazer a ligação entre esses dois textículos, limito-me ao essencial.
Eis que há vezes em que acreditamos estar indo bem, levantamos e dormimos acompanhados da felicidade e do sossego, e vivemos com o olho no além adiante, planejando, desenhando paisagens, sentindo o cheiro dos ventos e os sabores do futuro, sempre certos de seguir acompanhados do bom e do bem presentes. Mas, ó leitor, isso acaba no tempo em que resplandece um raio! Não sabíamos, mas algo acontecia! E, com o trovão, sabemos que aconteceu. Tudo o que tínhamos a nos acompanhar, no sereno-viver de que falava, esfuma-se no silenciar do estrondo... Diante da paisagem deserta, fica-nos a ressoar um agudíssimo, dentro do crânio; daí em diante, nos acompanha, onde quer que formos, quando dormimos e quando acordamos, na rua, no trabalho, no banheiro, mesmo lá no fundo do frigir da nossa omelete dominical. Damo-nos conta de que não é do ouvido lesado. Descobrimos que há uma corda muito fina, que parte daquela região perto do esôfago, onde sentimos tudo o que é ruim, pavoroso e causador de agonia –chamo-a de zonagônia–, passa pela espinha dorsal e chega ao cérebro. O som é, na verdade, essa corda vibrando, num agudo que nem um Paganini poderia alcançar no seu violino. E, como eu disse, fica ressoando, dia após dia, onde quer que nos encontremos ou seja lá o que estivermos fazendo. Deixemos que um dos personagens de Fonseca descreva como é ter esse agudíssimo vibrando ao infinito:
“acordo sentindo uma aporrinhação enorme e penso depois de tomar banho passa, depois de tomar café passa, depois de fazer ginástica passa, depois do dia passar passa, mas não passa e chega a noite e eu estou na mesma, sem querer mulher ou cinema, e no dia seguinte também não acabou. Já fiquei uma semana assim, deixei crescer a barba e olhava as pessoas não como se olha um automóvel, mas perguntando, quem é?, quem é?, quem-é-além-do-nome?, e as pessoas passando na minha frente, gente pra burro nesse mundo, quem é?”
Mas eis, leitor, que não é só isso! Pois queremos tanto silenciar o vibrar da cordinha, mas não cessa. Ah, não cessa! Cordinha tensa, repuxa a zonagônia! E os dias passam, trabalho-casa-coisas-casa-trabalho, e o agudíssimo lá, (“quem é? o que?”). Um dia, mais duro que os demais, de repente, algo quebra: como os vidros que não podem com a voz de uma super-soprano –coisa que só vi em filme, aliás–. Outro personagem de Fonseca tem as melhores palavras para isso:
“aconteceu uma coisa que nunca pensei que acontecesse comigo. Eu estava sozinho. Em determinado momento fiquei pensando em Norma com tal intensidade que comecei a ficar sem ar, com a sensação de que o meu coração ia parar, o que devem sentir as pessoas prestes a morrer. Então subitamente comecei a chorar. Havia uns trinta anos que eu não chorava; é uma coisa estranha que preciso contra em detalhes. Após algum tempo os olhos se fecham; você sente as lágrimas molhando o seu rosto e uma sensação de alívio como se você fosse um homem envenenado e uma veia se abrisse e lentamente pusesse para fora todo o sangue ruim, fazendo-o sentir-se melhor a cada gota que saísse –mais leve, mais bom, mais puro, mais digno, mais feliz na sua automisericórdia. Depois disso (se você está sozinho) você sente vontade de gemer um pouco e suspirar fundo e fazer umas caretas de dor, contrair o rosto fechando os olhos com força, como se estivesse em frente a um espelho ou a uma câmera cinematográfica. É um abandonar-se à dor que faz a dor doer menos. A dor a seco é pior.”
O volume do agudo abaixa, ah sim abaixa! É todo um remédio, como diz o personagem, espécie de sangria.
Tenha presente, ó leitor!, que não é necessário que você me acompanhe no dito aqui! Quando falei em “nós”, foi, assim, de modo genérico, como quando os anglo-saxões dizem “one can do this, or do that”; “um”, dizem eles, um qualquer. E, perdoe-me o leitor, mas é mais a esse “qualquer” que proponho esses pensamentos de hoje do que a você, que tenho em tão alto conceito, e jamais chamaria de “qualquer”! Antes, o “qualquer” sou eu!, e ouso, vez por vez, pedir-lhe a sua atenção.
Mau modo de terminar os escritos deste ano, eu sei! Mas eis que o agudíssimo, melodia da zonagônia, sobrepôs-se a tudo o mais, e não pude trazer-lhe nada melhor desta vez, caríssimo leitor. Mas passa (depois do ano novo, da volta ao trabalho, do carnaval, da páscoa, passa...). Prometo estar recomposto no próximo ano. Estarei cá, esperando-o. Grato sou, e muito, pela sua paciência e boníssima vontade no ano presente. Passe bem!
Vale!
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
A primeira lei anti-poluição
Cá estou de novo, caríssimo leitor! Sumi, é verdade. Mas vivo que estou, apareço, ei-me! E como já se disse do “burrinho predrês”, quem é visto é lembrado!
E hoje, leitor, vamos de curiosidade. Não é lá tão notável, mas muito ao sabor dos nossos tempos, no qual ecologistas e céticos estão a se digladiar: os primeiros acusando os segundos de cegos, e estes dizendo daqueles que são alarmistas e histéricos. Não estou aqui para dar o veredicto sobre esse certame – pois quem sou eu para tal, ó leitor?! –, mas sim para trazer à memória (ou ao conhecimento) dos interessados e curiosos aquele que pode ser um dos primeiros tiros deste encarniçado debate que vemos nos dias atuais.
Já num textículo que neste blogue figura, indiquei certa admiração que nutro pela Idade Média. E eis, leitor, que a ela novamente me permito remetê-lo. Se naquele escrito tive por fonte uma obra de Jacques LeGoff, nas linhas que seguem hei de referir-me a uma obra que vou beliscando de longe em longe, sempre com gosto, como quem deixa pedacinhos de chocolate a derreter na boca (ao invés de morder a barra qual tubarão). O autor é Jean Gimpel, a obra intitula-se A revolução industrial da Idade Média. Tendo chegado exatamente ao meio deste volume, já me inteirei de coisas fantásticas, maravilhantes e admiráveis. Entre elas, que já na Idade Média havia uma espécie de capitalismo: as pessoas se associavam para construir moinhos nos rios, e vendiam suas “partes” dos moinhos. Tais partes eram como verdadeiras “ações”, que eram revendidas pelos compradores a preços que variavam segundo a produtividade dos moinhos. Imagine, ó leitor!: Você investe X na construção de um moinho, junto a outras 99 pessoas, cada qual investindo X. Uma vez pronto, o moinho vale, digamos, 100X. Em funcionamento, o moinho mói 1 tonelada de trigo por ano. Ele é um sucesso, cada investidor recebe 5X por ano: o X investido e mais 4X como parte do que lhe toca daquilo que as pessoas pagam para usar o moinho. Um dia, você decide vender a sua parte, por 10X. O comprador tem a expectativa de recuperar o investimento em dois anos e então começar a lucrar. Mas eis –ó maravilha!–, que o rio se torna mais caudaloso, e agora o moinho mói 4 toneladas de trigo por ano! O felizardo comprador recupera o investimento (10X) em meio ano e lucra mais 10X no fim desse ano. Mas a sua filha vai casar-se, precisa de um dote... e ele vende a sua “parte” do moinho por 40X. O novo comprador espera recuperar o investimento em dois anos, e começar a lucrar 20X por ano. Mas –ó desgraça!– o rio começa a minguar... e passa a moer ½ tonelada de trigo por ano... Prejuízo! E o último comprador está duplamente quebrado: perdeu uma dinheirama e vai ser moído pelo rolo de massa da esposa...
Não sei bem se fiz corretamente os cálculos acima, caro leitor. Você, no entanto –perspicaz–, deve ter notado já antes dos meus rodeios todo o potencial “especulativo” que se criava ao redor dessas “partes” dos moinhos, as altas e baixas a que estavam sujeitas por muitíssimos motivos: aumento ou míngua do rio, moinhos concorrentes, colheita do trigo etc. Verdadeiras “ações”, numa verdadeira Wall Street nos rios da Europa Medieval...
Mas, céus!, como me desviei do meu primeiro intento aqui! Recapitulemos: falava eu das curiosidades que tinha encontrado percorrendo o livro de Jean Gimpel até a metade. Uma delas, essa dos moinhos. Outra: os chineses, supostamente, inventaram o relógio mecânico no século XI, os europeus só no XIV. E mais outra, que é o verdadeiro assunto destas claudicantes linhas: ao que parece, a primeira lei anti-poluição que o Ocidente editou foi criada em 1388 na Inglaterra, votada em Cambridge pelo parlamento. E como se chegou a precisar de uma lei dessas? O itinerário não difere muito do que conhecemos ainda hoje
Em algumas décadas, o ar começou a se deteriorar... Londres, segundo Gimpel, foi a primeira cidade a sofrer com a poluição atmosférica; a pestilência da queima de carvão se espalhava, a fumaça e o seu cheiro passou a irritar olhos e vias respiratórias dos cidadãos. Até para cozinhar usava-se a hulha, mas, claro, nas cozinhas do povo: a nobreza afastava-se o quanto podia do contato com o carvão.
Estava o ar, pois, leitor, empestado, as florestas, devastadas. Falta algo? Ó, sim! Uma grandíssima parte da queima de carvão se destinava aos fornos das forjas e estas eram muitíssimas nas cidades. E como é que se forja o ferro, ó digníssimo Sir Reader!? Incandescendo-o e... martelando! Da manhã à noite, os martelos desciam forte sobre os rubros ferros, o som infernal castigava os tímpanos de todos! Gimpel chega a citar um interessante poema francês da época, cujos primeiros versos dizem assim:
Ferreiro negro de fuligem,
todo sujo de poeira,
deixa-me louco o barulho
dos seus golpes redobrados.
Estava tudo péssimo, ó leitor, mas resta ainda um cálice de calamidade para verter-se sobre o homem medieval: a água dos rios mudava-se
Temos aí, leitor, os traços mais marcantes da Herkunft, da procedência da sobredita primeira lei anti-poluição. No fim do século XIV, o parlamento inglês votou e sancionou, visando à pureza do ar e da água, a lei: proibia-se o aventar detritos aos rios e o abandono de imundícies ao ar livre. E, como cita Gimpel, esta advertia ainda para as conseqüências ambientais do seu possível desrespeito: “o ar será seriamente corrompido e envenenado, doenças inumeráveis e epidemias intoleráveis grassarão todos os dias”. A modo de profecia, bem ao gosto de um país cristão, a lei prometia calamidades estrepitosas pela sua quebra.
Vê-se mais uma vez como é injusto o trevoso epíteto da Idade Média. O primeiro ditame de “consciência ecológica” expressada juridicamente vem deste tão vilipendiado período da história ocidental.
Deixo-o por ora, ó leitor, com essa sugestão de leitura, essa obra de Gimpel, tão informativa e estimulante da imaginação.
Vou-me satisfeito por, quem sabe, havê-lo entretido com mais algumas linhas, escritas com esmero e a esperança de obter a mui alta distinção de tê-las percorridas pela sua atenção.
Saudações e até a próxima!
Rico.