segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A mais bela cena de todos os tempos

Cá estou novamente, ó leitor, depois de tanto tempo! Tive de repensar meus propósitos, e assumo definitivamente o fracasso quanto ao intuito de postar semanalmente. Fá-lo-ei, como se diz por aí, “de vez em quando”, sem prometer assiduidade ou espaçamento.

Vamos ao nosso textinho de hoje, no qual vamos de filme, caro leitor! Não uma resenha, menos uma crítica. Apenas falarei de uma cena, a mais bela cena de todos os tempos, no meu julgamento. Este não é lá muito confiável, devo dizê-lo, pois não vi muitos filmes, de fato. É bem o contrário: vi poucos, mas muitas vezes! Esse filme, do qual lhe falo, intitula-se The good, the bad and the ugly, “O bom, o mau e o feio”. Deve conhecê-lo já, ó leitor, eu sei. Chego a ser ridículo por sugeri-lo... Ah! Mas essa cena... essa cena é bela, belíssima!

Sem dar-me conta, com ela dou continuidade a uma campanha pela liberdade, iniciada no post anterior, com a citação de Machado de Assis. Uma campanha pró-liberdade de escolha, pela liberdade de fumar, de saborear o fumo. Seria uma infâmia dizer que estou “promovendo o tabagismo”... Seria, sim produto da histeria dos próprios inventores desse termo chulo: “tabagismo”. Essas pessoas é que são adeptas do “empulhismo”: o vício inveterado de empulhar os demais. Permita-me ser grosseiro, digníssimo leitor: “ismo” no cú dos outros é refresco!

Mas deixemos de lado essa gente infeliz, voltemos ao nosso colóquio. Digo, pois, que esta é a cena mais bela de todos os tempos. Não a descreverei, apenas direi como somos levados a ela. Como é sabido, o filme em questão situa o seu enredo na guerra civil norte-americana. “União” e “Confederação” se estraçalham com canhões e baionetas pelo poder e, enquanto isso, os três protagonistas do enredo –o bom, o mau e o feio– disputam muitíssimos dólares que estão enterrados num cemitério –que, aliás, tem um nome lindíssimo: “Sad hill”–. Para chegar ao seu prêmio, eles atravessam muitos quilômetros do território norte-americano, ora cruzando-se e entrando em conflito, ora sós. Eles encontram, também, no seu caminho, as linhas de combate entre “União” e “Confederação”. É num desses encontros que se desenvolve a cena que aqui lhe disponho, ó leitor. Só você poderá encontrar o que há de belo nesses segundos intensos, emocionantes. Só depois de assistir a essa cena você poderá entender essas minhas palavras: há coisas no mundo que só um fumante pode fazer por outro... e há vezes em que isso é tudo o que um ser humano pode fazer por outro.

Fique, pois, com a mais bela cena de todos os tempos. Veja, reveja, arqui-reveja e reflita sobre ela. O belo e elevado não se entrega no primeiro encontro.


Saudações e até a próxima!

Rico.

ps: vi que o servidor do blogger está fraquejando. Veja o vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=YbT_f0F7mSo

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"A melhor companhia deste mundo..."



Definitivamente, ó leitor, vejo esvair-se a minha intenção de postar semanalmente. Estou aprontando um texto, isso garanto-lhe, mas está me exigindo umas leituras e ainda tomará um tempo para estar pronto. Por ora, vou-lhe propiciar mais um dos tantos ditados que há exaltando as maravilhas físicas e metafísicas do fumo. Este o encontrei no nosso queridíssmo Machado de Assis, mestre de todo luso-parlante neste século e nos que hão de vir. Já na quinta cena do primeiro ato da peça "As forcas caudinas", o leitor há de encontrar-se com estas verdadeiras palavras; verdadeiras, digníssimas, sublimes! atrevo-me a dizer. Pode ser que a histeria anti-tabagista atual possa obscurecer a compreensão de alguém que vier a passar os olhos sobre tais palavras. Mas para quem sabe e desfruta da densidade morna e etérea que um bom fumo verte sobre o paladar, elas soarão como aquela idéia sempre sabida mas nunca expressada. O tipo de idéia que temos e só os poetas são capazes de no-las lembrar. Fique, pois, leitor, com as palavras em louvor do fumo pintadas por Machado de assis como fala do personagem Tito. Au revoir!

"Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: reduzindo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte."

(
Texto fonte: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/arquivos/texto/0006-01512.html )

ps: Curioso! Machado publicou o mesmo enredo desta peça como conto, intitulado "Linha reta e Linha curva".

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A revelação do Sr. B.

***
Olá, leitor!
Na semana passada tive que suar as linhas finais de uma monografia... não pude postar o textinho de praxe... furei com você! Mas agora, vejo-me mais livre.
Esta semana, vamos de conto. Este é um que escrevi nas últimas férias de verão, diverti-me muito escrevendo-o e espero que você se divirta lendo-o. Li de novo por cima e não me pareceu mau. Devo, sim, desculpar-me por quaisquer gralhas gramático-ortográficas, se as houver.
Fique, pois, com "A revelação do Sr. B.", que poderia ter por subtítulo algo como "um mistério musical".
Boa leitura!
***



O Sr. B. era circunspecto. Tinha perto de cinqüenta anos, vestia-se como um senhor de meia idade: gravata, camisa, colete, suspensório e tudo que a eles se relaciona. Deixava um bigode branco, estilo leôncio-do-pica-pau, alcançar os seus lábios inferiores. Usava grossos óculos, de cor cinzenta, pousados sobre um nariz atucanado, coisa que lhe dava certo ar de dureza e frio. Mas era de trato animado. Isso, porque o trabalho que desempenhávamos para ele, o negócio do qual ele vivia, era tal que eu mesmo pude lhe deduzir a nobreza e a complexidade depois. Tarefa árdua, mas compensadora, a invenção de canções perdidas. Um mercado não muito vasto, que poucos escritórios como o do Sr. B. ao redor do mundo se encarregavam de alimentar. Eu era músico fracassado e entrei nisso. Realizei-me: descobri uma outra faculdade musical, diferente da exigida por instrumentos. Inventar canções perdidas quer dizer: fazer com que a coleção de músicas de uma certa banda nunca seja completa. Isso parece excêntrico, mas essa atividade tem história, divisível em duas fases: antes e depois da rede mundial de computadores. Mas isso não mudou, entenda-se, em nada a nossa atividade de produção, a divisão em duas fases se manifesta apenas no que diz respeito à distribuição. A nossa atividade, a minha e dos demais no escritório do Sr. B., era inventar canções sempre a resgatar, inéditas e sempre vendáveis, que viriam a completar discografias, que viriam a ser mais completas depois, ao revelar-se mais uma canção. E se nos primórdios havia bastante lucro com a venda dessas canções, não ganhamos muito menos depois que passamos a compô-las simplesmente para jogá-las na rede, estimulando as pessoas a acessar e a movimentar dados. Mas isso durou pouco, o negócio perdeu a alma e todos pararam.

Mas nos bons tempos, pois estou falando de uns quinze anos atrás, o Sr. B. se digladiava com outros similares a ele, seus concorrentes, quando as gravadoras chamavam todas as firmas para uma reunião, onde eram distribuídos os nomes dos grupos, bandas, cantores e cantoras que iriam engendrar, em alguma longínqua gravação esquecida, uma canção, que ninguém até então possuía e foi encontrada por um arquivista da gravadora tal.

Nós, do escritório, tínhamos uma só dúvida a respeito do Sr. B. Tratávamos de saná-la pela observação de toda possível expressão sua ao nos entregar os caixotes com as matérias primas dos nossos trabalhos: os materiais das gravações originais. Ele dizia o nome do grupo ou cantor e nós nos atentávamos para algum gesto emotivo, mas nada. O gosto musical do Sr. B, nosso enigma, demorou a ser desvendado. O Sr. B não convivia com a gente fora do escritório, nós apenas o víamos chegar com o seu carro enquanto o esperávamos à porta. Nunca saiu qualquer vestígio de música dentre os roncos do motor do Sr. B. Ele nunca cantarolava, e era indiferente à eminência de alguns dos autores do material que praticamente jogava diante de nós, anunciando seu nome com um sotaque inglês jocoso. Era um homem só, isso era bem notável.

Nós nos lançávamos sobre o material e nos trancávamos cada qual no seu estúdio para trabalhar. Às vezes o Sr. B. trazia duas ou três encomendas e designava algum de nós para fazer uma delas sozinho. Nós tínhamos duas compensações nesse trabalho. A primeira: a cada sucesso emplacado ganhávamos uma ampliação colorida (que afixávamos na parede) do encarte do disco onde a nossa composição havia entrado, disco de qualquer uma das grandes bandas e cantores que atravessaram o século XX. A segunda: por cada sucesso o Sr. B nos permitia encomendar algum componente que pudera nos ajudar no nosso trabalho. Além disso, claro, tínhamos nossos soldos, que não eram maus.

Foi um encarte de disco que me levou a ter consciência de que existia um negócio como esse. Eu era adicto a certa banda, da qual eu acreditava ter tudo, tudo o que eles tinham gravado, lançado e abortado antes de lançar. Claro que esses abortos surgiam como lançamentos posteriormente, e eu os colecionava com afã. Mas eles surgiam, numa certa periodicidade, e eu tinha de colecioná-los daqui e dali, recomprando músicas que já tinha para ter acesso a uma que eu ainda não possuía. Eu tinha o hábito de tirar um fim de semana por mês para ficar deitado num colchão, ouvindo a minha excelente vitrola. Foi num fim de semana desses que tive um deja-vu auditivo, com uma música que havia tempos comprara e não ouvira ainda. Olhava o seu nome no encarte do disco quando identifiquei uma passagem familiar, de meio segundo mais ou menos, num vocal que acompanhava o retorcer de uma nota de guitarra. Tinha certeza de já ter ouvido aquele fragmento nalguma outra seqüência. Horas e horas fiquei procurando o fragmento espelhado desse que me tinha aguçado a curiosidade. Terminou durando dois dias a minha busca, haja vista a quantidade de discos daquela banda que eu tinha. Encontrei o que procurava, e estava certo: um fragmento dessa música estava naquela, que eu comprara inédita. Desde aquele dia comecei a descobrir que havia, a partir de certo momento ao longo dos anos, uma espécie de espectro nos inéditos da minha banda preferida, uma forma primária que se desdobrava nas diversas músicas. Com ouvidos atentos, consegui entender a equação sinistra e maravilhosa que extraia os símiles das inúmeras variações que despontavam de forma virtual das composições originais e permitia desdobrá-los em novas composições. Dediquei-me a investigar qual era o alcance desse procedimento. Encontrei resultados similares na audição de discografias “completas” de outras bandas. Entendi que eu tinha o mesmo talento que possuíam as pessoas dedicadas à extração da mathesis universalis dos universos musicais que marcaram a vida cultural do século, pessoas que fabricam curiosos passados e gravações secretas “só agora vindas à luz”. Gravações que eu e tantos outros comprávamos sem parar. Muni-me de parafernália suficiente para me por a prova: saber se eu tinha os dons práticos da extração daquelas matrizes, quer dizer, não só uma faculdade de recepção, mas uma de produção. E eu a tinha. Compus muitos inéditos da minha banda preferida, até cansar, até conhecer os seus hábitos musicais melhor que eles mesmos.

Mas quem seriam meus pares, quem seriam aqueles que teriam tal audição, como eu? Perguntava-me. E passava os dias obcecado por saber. Era desesperante não possuir qualquer mancha, tatuagem, cacoete ou chaga que pudesse distinguir a mim e a meus semelhantes na multidão. Eu era um comprador muito mais comercial do que colecionador, meus hábitos de consumo de discos me faziam passar por lojas grandes. Passei a buscar as pequenas, mais recatadas, e acertei. Nelas se vendiam raridades, epês, elepês, e cassetes, cedês, claro. Mas o que tinham de muito valor mesmo para mim era os tipos que as freqüentavam. Ganhar confiança naquele ambiente era difícil. Eles chegavam, apoiavam-se no balcão e, com gestos apenas, escolhiam o que queriam ouvir. Era então que havia como que uma intimidação. Eles não conseguiam ouvir em paz a música enquanto eu estivesse por lá. Olhavam-me e eu saía em pouco tempo, fulminado pelos olhares.

Houve um dia em que decidi ficar, sob a vista alta dos ouvintes. Eu tinha certeza que eles ouviam inéditos e discutiam a argúcia do seu inventor. E eu queria muito entrar na discussão, mais ainda porque a música recém passada era uma invenção que eu conhecia e estudara. Metade de outra invenção já estava tocando quando ouvi a pergunta ríspida disparada contra mim: “Achou o que queria, meu chapa?”. Virei-me e metralhei: “Você notou como nos minutos dois com trinta, três com trinta e quatro com trinta há quase um segundo, em cada um, que é o último segundo do solo da “música branca”, do primeiro epê deles?”. Os quatro que ali estavam se entreolharam e sorriram. “O que mais você sabe sobre segundos e fragmentos nômades?”. Fiquei uma hora lhes falando sobre as minhas descobertas, suspeitas e passatempos. Em pouco tempo aqueles homens eram meus amigos e freqüentavam a minha casa, o único que nos assemelhava era a tal capacidade de ouvir e compor as invenções. Trocamos entre nós diversas composições. Eles todos elogiavam as minhas, criticavam-se entre si e eu julgava para mim que somente um deles tinha, como eu, a capacidade plena para a extração das matrizes e composição de invenções. Estabeleci mais diálogo com ele e, aos poucos, começou a me expor as fraquezas das composições dos demais. As suas explicações eram as mesmas que eu tinha para mim.

Foi ele, Fonzo, que me levou ao escritório do Sr. B. Ligou numa manhã, dizendo-me que pegasse o melhor do meu material e o esperasse na frente do meu portão. Ele me levou por algumas avenidas, até entrar numa rua curta que dava num portão. Enfileirou atrás de outros cinco carros que ocupavam metade da ruela. Fonzo tocou o interfone e a porta diante de nós logo estralou e se abriu. O lugar era um pátio com um edifício cinza, cúbico, de cinco andares e janelas opacas e fechadas. “Bem vindo ao escritório do Sr. B”, disse-me. “O pessoal lá da loja, dos discos, não sabem que eu trabalho aqui. Veja, eles são amadores, sabem da coisa, mas não sabem quem faz. Você é bom e pode compor inéditos excelentes. Eu trabalho nisso e em achar gente como você.” Entramos no prédio e subimos quatro andares pela escada. No fundo do corredor encontramos a porta pela qual nos adentramos no gabinete refrigerado do Sr. B. Ele estava de costas para a porta e, quando entramos, virou de frente para nós na sua larga poltrona giratória de couro preto. Com um charuto entre os dedos, parou o seu giro, repetindo a cena do mafioso no escritório. Mas a sua cara não era a de um don Corleone duro e bonachão. Era um ser cinza, com seus óculos cinza e o longo bigode branco e espesso brotando de debaixo do enorme nariz. “É esse o rapaz, Fonzi?”, perguntou a Fonzo. Este acenou que sim. “Tem o seu material, jovem? Fonzio disse que você é promissor! Vejamos!”. Eu fui de forma automática colocando para tocar minhas fitas. Ouvimos longamente, até que o golpe violento do Sr. B. sobre o botão stop deteve o som. Levantei a vista de encontro aos vidros cinzentos. Dentre os bigodes saiu a frase: “O estúdio seis é seu. Tem material esperando lá. Te dou duas semanas. Boa sorte”.

No corredor que levava ao meu estúdio, Fonzo me sorria e dizia “Eu sabia que o Sr. B iria concordar comigo. Olhe que eu nunca o tinha visto daquele jeito ouvindo uma fita de proposta. Você pode ter até levantado uma pista para a resolução do enigma do Sr. B!”. “Que enigma?”, perguntei. “Calma, vai trabalhar. É aqui. No intervalo você vai conhecer os outros e vai saber de tudo, do enigma e tudo mais. O pessoal vai gostar de você. Você sabe mexer nisso tudo, é igual ao da sua casa, só é mais caro e de propriedade do Sr. B. A luz amarela vai acender quando chegar a hora do intervalo. Desça as escadas e vá nos encontrar lá embaixo”.

Até a tal luz acender eu compus três invenções, a partir daquele material que me esperava e que eu já conhecia. Desci e encontrei Fonzo e outros três tipos, de idades aproximadas. Eu era certamente uns quinze anos mais jovem que todos eles. Fonzo tratou de me aproximar, só pude dizer meu nome no fim das apresentações. O primeiro a me cumprimentar era magro, vestia jeans e uma camisa de mangas curtas e tinha uma barba cerrada e escura. O chamavam Baba, porque, disseram, compôs uma invenção que rendeu uma boa grana ao escritório, atribuída a um quarteto de vikings. O segundo a se apresentar disse que o chamavam Estrato, por razões instrumentais óbvias: colecionava guitarras Fender. Era alto, mais magro que o primeiro e tinha mãos grandes, cabeça grande e olhos meio desorbitados. O que Fonzo veio me dizendo que era o “escritório” estava já me parecendo uma espécie de armário cheio de espantalhos. O terceiro tipo era de poucas palavras, “me chamam Nê, de Nêstor”. Eles pareciam não usar nomes. Já tinha visto que Fonzo não era nome, mas não quis perguntar. Todos eles me disseram o seu denominativo e a motivação do mesmo. Eu só pude dizer “Olá, me chamo Ambrósio, esse é meu nome”. “Brósio!, bom nome!”, disse-me o barbudo. Fonzo logo intercedeu, falando sobre as minhas gravações, e logo me perguntou sobre o trabalho que o Sr. B me tinha recém designado. Quando disse que tinha composto três invenções, eles quiseram imediatamente ouvir. Fomos ao meu estúdio e, ao vê-los ouvir o que eu tinha feito, dei-me conta de que eu era muito bom no que eles faziam de melhor. Eles quiseram ouvir o material que eu tinha apresentado ao Sr. B. também. Todos me desejaram, sorridentes, um bom trabalho e saíram, provavelmente cada um para o seu estúdio. No final do dia, que durava oito horas, levei cinco invenções ao Sr. B. Ele ouviu todas, amarelado pela sua luz de leitura. No fim da última se virou para mim e disse “vá descansar, rapaz. Você está dentro, vai ser grande ainda”.

Na manhã seguinte, quando cheguei, os quatro colegas já estavam na porta do pátio, esperando o Sr. B. Quando me aproximei Fonzo disse “aí está, Brósio! Pessoal, ele arrancou uma pista sobre o enigma do Sr. B!”. “Qual?!”, perguntaram os três em coro. “O material que ele trouxe”, disse, “fez com que o Sr. B. ouvisse sem se inclinar! Acho que essa é uma banda que ele realmente gosta, e é uma chave para o resto do seu gosto musical!”. Entendi qual era o enigma. O Sr. B. trabalhava nesse ramo recôndito da indústria fonográfica, um ramo de criatividade e sensibilidade musical extremos, mas não revelava qualquer inclinação para a música. Pegava discos e fitas como costeletas de porco.

Naquele dia conheci os estúdios dos colegas. Vi, penduradas nas paredes, as ampliações dos encartes dos discos onde haviam entrado os inéditos que eles tinham inventado. Inteirei-me da dinâmica do nosso jogo, das leis que regem o mundo dos inventores de inéditos. Para cada encarte na parede, há o galgar uma posição na escala imaginária, de infinita ascensão ao céu dos inventores. Nos meses que se seguiram trabalhei com afinco e, naquele ano, consegui três encartes na minha parede. Eu inventei um dos inéditos de mais sucesso já visto até então. Desbancava até os trabalhos oficiais. Essa música rendeu inclusive a ida de um especialista a um talk-show, para atribuir categoricamente a composição ao já morto autor, que emplacava assim um grande sucesso post-mortem. O Sr. B. me deu o maior estúdio do prédio, que estava no quinto andar.

O Sr. B. tinha-se confiado totalmente em mim. Até subia ao meu estúdio e me interrompia, para conversas curtas. Trocávamos algumas palavras e ele logo me dizia “trabalhe, rapaz. Finja que não estou aqui. Eu sei como me comportar em estúdio”. Punha-me a trabalhar, sentindo-me um pouco observado, mas sem tensão. Eu estava no topo, e os colegas, que ocupavam do terceiro andar para baixo, apenas me olhavam no pátio, sorrindo admirados. Um dia, Baba veio me falar: “Diga aí, rapaz. Você tem conversado como Sr. B. Diga se conseguiu sacar alguma coisa”. E eu tinha sinceramente tentado levar adiante aquilo do enigma, mas, como os colegas, fracassara e admiti a Baba o fracasso. “Ele é hermético quanto a isso, Baba. Nunca me atrevi a pergun...”, ele me interrompeu: “Não! Não pergunte jamais! Nós temos que descobrir”. Nem eu nem ele podíamos imaginar que o mistério do Sr. B iria se resolver pronto.

Pronto mesmo, porque eu vinha notando, havia algumas semanas, que o Sr. B. ia cada vez mais ao meu estúdio, e punha-se a me observar trabalhando e, enquanto eu parava de gravar, ele já mexia na minha mesa, rebobinando e ouvindo o que eu recém fizera. Aos poucos, com o passar das semanas, ele já soltava comentários a respeito do que ouvia. Mais adiante, estes se transformaram em pequenas reclamações. Um dia ouvi: “Está uma merda!”. Mas a merda me rendeu mais um encarte de peso na parede. O Sr. B. estava histérico, algo o estava deixando tenso demais. Quando um dia eu me aproximei do seu escritório, ouvi que gritava ao telefone: “Você duvida! Sabe quantos discos dos grandes eu pus no circuito!? Você sabe bem! Consiga isso para mim, o meu material, o meu trabalho é sem dúvida o melhor, insista com eles! Mostre a eles, em três anos, mais de dez sucessos grandes, eles venderam caixas de coleção a rodo! Quase trinta nos últimos 10 anos! Eu dou uma pérola e eles juntam com a velharia que todos já têm. Juntam tudo e vendem de novo! E só vendem por causa da minha pérola! Pois bem, que dessa vez me concedam a honra, eu nunca pedi nada! Que me deixem fazer essa gravação! Consegue para mim! Me liga com boas notícias”. Eu já havia entreaberto a porta. Duvidava em entrar, pois o Sr. B não tinha sido nada agradável nos últimos meses. Mas tinha que fazê-lo, pois eu ia me demitir. “Entre rapaz! Como vai? Seu equipamento vai bem? Excelente a sua última, rapaz!”. Eu não entendi a boa disposição do Sr. B. A tensão ainda era notável, mas ele sorria, seu bigode se expandia e era possível lhe ver os dentes inferiores aparecendo. Ele me olhou fixamente, sempre com a boca entreaberta. Fez um gesto inesperado: tirou os óculos cinzentos e me fitou com olhos castanhos, brilhantes, focando a mim, mas também algo através de mim. O coração lhe saltava no peito. “Rapaz. Ambrósio. Sou um homem sensato, e tenho consciência de que nos últimos meses eu lhe massacrei. Mas veja, Ambrósio! O nível em que você chegou! Você agora é capaz de tomar o lugar de qualquer um dos grupos, bandas ou o que for, de qualquer um dos mais vendidos de todos os tempos. A você pertence as matrizes, Ambrósio”. Eu me senti meio cavaleiro, meio mago, meio profeta, meio herdeiro do Sr. B. “Toda a pressão, caro Brósio, foi para lhe preparar para o seu feito máximo. Dependo de uma ligação. Ela pode vir a qualquer hora, e você e os rapazes terão de vir a qualquer hora. Vá, rapaz, e fique atento ao chamado.” Desisti da demissão, é claro. Depois de tanta cerimônia eu queria muito saber qual seria o meu feito máximo. O Sr. B. deteve todos os trabalhos e mandou todos para casa, com as mesmas palavras de antes: “estejam atentos ao chamado...”.

Não veio em má hora, nem cedo da manhã, nem noite adentro. Foi numa tarde agradável que soou o telefone. Levantei-o do gancho e brotou metalizada a voz do Sr. B: “Rapaz, esteja em uma hora no escritório. Chegou o seu dia”. Desligou em seguida e eu me senti nervoso com aquilo. Cheguei em quarenta minutos no escritório e os colegas estavam na entrada. Cumprimentaram-me alegres. Fonzo disse que o Sr. B. lhes indicara que hoje deviam estar dispostos a todo tipo de auxílio que eu pedisse. “O enigma acaba hoje”, disse Nêstor, “tem cara de parto isso tudo”. Quando ele terminou de falar, o portão que dava entrada ao pátio começou a deslizar para um lado. Nós ficamos estranhados, porque o Sr. B. nunca o tinha aberto. Quando olhamos para a entrada da rua, vinha um carro forte, preto, que passou do nosso lado, entrando no pátio e encostando no prédio. Nós fomos até ele e o ficamos olhando, nada se mexia dentro. Um novo barulho de motor e distinguimos que vinha um fusca, lindo, com o capô, o teto e o porta-malas preto, as portas e os pára-lamas brancos, brilhoso, lustrado. Mas tinha um detalhe especial: onde devia ir o círculo da Volks, havia um “Mr. B” circundado, cromado. Era muito belo aquele fusca. Mas ficamos os cinco pasmos ao ver que dentro dele vinha dirigindo o Sr. B, sem as suas vestes de praxe. Estava muito diferente. Parou a uns metros de nós e desceu. Tinha aparado o bigode até a normalidade, e usava óculos redondos, de lentes verdes e pequenas. Vestia uma camiseta branca, e uma jaqueta preta e calça jeans. Parecia mais jovem, não era mais o mesmo, isso ao certo. O Sr. B, sacou da jaqueta um rádio transmissor e falou em inglês. As portas do carro forte se abriram diante de nós, e dele saíram quatro homens vestidos de azul, com fuzis, e também um senhor branquíssimo, muito bem vestido, portando uma mala. Desceu dois degraus do carro até o chão e se aproximou do Sr. B. “Good evening, Mr. B. As planned, here are the originals for your work. Be conscious that these are relics”. “Thank you, Sir.”, respondeu o Sr. B., pegando a mala entre as mãos, “they are in very good hands”. Veio andando até mim, parou a dois passos e esticou os braços com a mala sobre eles, como se ela fosse um bebê: “Rapaz, veja o selo deste material. Você sabe o que fazer. Você nasceu para isso. Esses homens vão ficar fazendo a segurança do prédio enquanto você trabalha. Preciso de uma apenas, Ambrósio! Uma! Faça-a grande, como você sabe fazer... como eles fizeram e foram os maiores!”. Deu as costas para mim e foi andando na direção do seu fusca. Eu e os rapazes nos entreolhamos, pasmos com o modo abrupto do enigma se resolver. Inconcebível, o Sr. B. fazendo qualquer gesto de tocar guitarra, ou o mais simples esboço de dança. Mas eu quis dar um arremate. Antes do Sr. B entrar por completo no fusca soltei um assobio alto e agudo. Ele se deteve e pôs o corpo para fora, deixando apenas um braço apoiado na porta. “Diga rapaz, o que você quer?!”. “Gostaria de saber”, eu disse, “se o bê do seu fusca é o mesmo bê que está no seu nome, Sr. B.!”. Ele sorriu por um minuto olhando para o chão e levantou a vista, apartando os óculos da sua cara. “Não, rapaz. O meu bê é apenas bê de ‘Senhor. B’. O bê do ‘Mr. B’, desse belo fusca, é outro... é bê de ‘Míster Beat’!”. Entrou e se fechou no fusca, fez a volta e foi-se portão afora. Nós entramos no prédio. Os homens armados se posicionaram nas portas. Trabalhamos os cinco até o fim do dia. Quando descemos, tivemos que entrar no carro forte com o tipinho branquelo e esperar por uma espécie de checagem que ele fez no material que estava na mala. Liberou-nos com um gesto.

Decidi parar de trabalhar naquilo depois daquele dia, realmente tínhamos atingido o mais alto que se podia chegar. Mas tivemos que nos manter no ramo por mais alguns anos, para poder comer e pagar as contas. Aquela gravação, minha e dos rapazes, foi parar num álbum comemorativo, com direito a caixa, livretos, e tudo o mais. Um grande lançamento mundial. Ainda me lembro do olhar infantil do Sr. B. diante da caixa, dos livretos, seu olhar fixo na página onde figurava o nome da nossa invenção. Era a nossa música ao lado de uma fotografia colorida daquela banda, a proximidade do nome e da imagem indicando, mais do que nunca, que aquela peça fora composta por eles, em alguma sessão perdida. Por eles, a banda que mexia forte com o coração solitário do Sr. B.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Paaaaaaaaaaaintbrush!

Esta semana, leitor, vamos de paintbrush! Cá ponho uns desenhos que fiz com esta ferramenta... Meus amigos avançados em design dizem-me todo o tempo que eu devo aprender a usar o Corel Draw, largar desse brinquedinho de criança. Eu resisto! Resisto porque não sou designer, não devo perfeições gráficas, apenas me divirto com o paintbrush... e mais de um já ficou "de cara" ao ver que esse brinquedinho tem uns recursos muito legais, que não é tão capenga assim...

Vamos aos desenhos!



Este chama-se "Man, cat, black white" ou "Reader with cat". Já me disseram que o cara parece estar sentado sobre um piano! Foi o melhor que pude fazer o sofá... Mas dá pra entender, não é? Dos que eu fiz até hoje, é o meu preferido, fico horas olhando pra ele!


Mais um:

A este eu chamei de "Rock Girl". Uma amiga minha sempre faz chacota com ele, dizendo-me que "parece estampinha da Colcci, cara! huahuahuahuahuahahua!" É assim mesmo a risada dela, longa e debochada. Eu gosto dele. E desenhar essa moça aí me deu um trabalho do cão, porque minhas habilidades desenhísticas são, efetivamente, um pouco maiores que a de um poodle... e tem que ser um poodle de jardim! Porque esses que ficam dentro de casa devem até meter as suas patinhas nos notebooks das dondocas!

Agora, o último:

Este chama-se "Punkt Attack". É o mais simples dos três e foi também o mais fácil de fazer. Pontos atacam a cidade!

O leitor há de ter notado que são todos em preto e branco... sim. Eu só faço em preto e branco. É, digamos, a minha principal "diretriz estética" A mesma amiga que debocha da minha estampinha da Colcci sugeriu-me colocar uma cor em outro desenho que ainda estou fazendo... não consigo! Terror dos terrores!

Por esta semana, é só!

Saudações, até a próxima!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Os passarinhos, ó céus!

Foi quando eu lia O mundo como vontade e representação, do Schopenhauer, que me deparei com um ditado em italiano: L’uccello nella gabbia canta, non de piacere, ma dia rabbia. Vi que a tradução seria: “o pássaro na gaiola canta, não de prazer, mas de raiva”. O italiano, para quem se letrou numa nação de língua românica, não é uma língua difícil. Logo entendi o que o ditado dizia, mas fiquei abismado com a maneira de se dizer “pássaro” em italiano: Uccello! “Diabos! –pensei– como pode isso significar pássaro!”. Ocorreu-me então ir a outras línguas atrás do passarinho, que canta de raiva na gaiola. Logo vi que, em francês, diz-se oiseau. Isso estava próximo do italiano, mas a consternação continuava, porque em todas as línguas que conheço, umas mais, outras menos, havia uma discrepância grande entre os vocábulos para referir-se aos pássaros. Em italiano, ucello; em francês, oiseau; em português, pássaro; em espanhol, pájaro; em alemão Vogel (com maiúsculo, porque nessa língua os substantivos assim se escrevem); em inglês, bird. “Ora! como pode?, –eu pensava–. Em inglês e alemão, eu até entendo que haja distância para com as línguas românicas, mas por que o italiano, o francês, o português e o espanhol dividem-se dessa forma, os dois primeiros com o radical ou- e as duas últimas com os radicais pass- e paj-?”. Obviamente, só as etimologias podiam ajudar. E se o leitor, curioso como eu, quer saber também, convido-o a continuar pelas linhas que se seguem, num vôo de pássaro sobre as etimologias que desembocam em passarinhos vocabulares tão diferentes!

Começo pelo idioma que me causou a admiração inicial, o italiano. Isso logo esclarecerá o francês também. Esqueci de dizer que “línguas românicas” são aquelas que se originaram a partir do latim vulgar (pois o leitor não tem por que estar sabendo dessas coisas!), assim, sabendo que o italiano, o francês, o português e o espanhol são línguas românicas, o leitor poderá entender por que fiquei assim, “de cara” com o passarinho. Mas voltemos ao italiano: Uccello. Eis que o latim, pai do italiano, referia-se às aves assim mesmo como o fazemos em português: avis. Mas o leitor merece também saber que, segundo o que os estudiosos chamam de “pronúncia reconstruída”, a letra v, em latim, pronunciava-se como o nosso u, ou seja, aquela avis pronunciava-se “auis”. Agora, uma galinha, um avestruz, são aves também, assim, o pássaro, se posto ao lado dessas aves, logo faz ver que ele, antes de tudo, é menor: ao lado de uma galinha, de uma águia, o pássaro é “pequenino”; ele é pois, não somente uma avis, mas sim avis-cellus, logo, um avicellus, uma avezinha! Picurruchinha! Daí, lembrando da pronúncia do v, vemos que a avezinha, o passarinho, dizia-se “auicellus”. A partir daí, não é difícil imaginar como, no italiano, o passarinho é aquele uccello. O leitor só não pode me perguntar como a pronúncia foi-se transformando, ao ponto daquele a do avicellus ter desaparecido... aliás, pode, mas só posso responder “nescio” (não, leitor! não o estou xingando de néscio! Essa palavra significa, em latim, “não sei”). O mesmo princípio deu-se com o francês, de avicello, para oiseau, é o radical latino avis (“auis”) que está ali, junto com essa “queda” do a que eu não sei explicar.

Mas então, –cáspita!–, como foi que no português e no espanhol, línguas tão românicas como o italiano e o francês, aconteceu de vir a referir-se àquele avicellus vulgo-latino pelos vocábulos pássaro e pájaro? É que, já na idade do latim vulgar (que durou mais ou menos até o século IX, quando as línguas vernáculas começaram a se estabelecer), dentre os tantos avicellus que gorjeavam pelos céus medievais das províncias romanas, havia um que a gente ainda hoje conhece e ouve todos os dias: o pardal. Mas, o leitor deve ser advertido de que há e houve muitos pardais pelo mundo, e os havia na Europa dos romanos, ou seja, diversos tipos de pardal. Assim, o latim vulgar referia-se a diversas espécies de pardais pelo nome passarus. Então, o nosso pássaro em português, o pájaro dos espanhóis, é um daqueles avicellos, daquelas avezinhas que os nossos vulgo-latinos ascendentes viam e ouviam.

Foi assim, pois, que os italianos e franceses adotaram, para referir-se aos pássaros, o nome que em latim vulgar dava-se às avezinhas em geral e que os espanhóis e portugueses adotaram o nome de um dos tipos de avezinhas. Depois de informar-me a respeito disso, até que simpatizei mais com a primeira denominação, avicellos, e, logo, pela denominação dos italianos, uccellos. Por algum motivo que desconheço, parece-me que os uccellos são mais passarinhos que os passarinhos. E, ao meu ouvido e gosto vulgo-latinizados, chamar os avicellos e ucellos de bird ou Vögel soa até depreciativo! Mas o que sei eu dos germanos para julgar-lhes as expressões usadas ao referir-se aos meus avicellos! Os germanos, sim! que tantos lindos poemas dedicaram à natureza, devem ter os seus motivos para tê-los chamado assim, motivos que se mantiveram vivos e desembocaram no inglês e no alemão, línguas germânicas.

Agora, o leitor há de perdoar-me a pobreza de dados sobre como os descendentes desse povo adotou bird e Vogel para referir-se aos avicellos. Somada à minha ignorância, está a dificuldade, mesmo para os estudiosos da cultura germânica, em sondar os primórdios das línguas germânicas. Vamos ao inglês, pois, leitor. Tantos dados me faltam, que posso apenas dizer que, em Old english, os bretões referiam-se aos pássaros pelo vocábulo fugol, e usavam bridd para significar algo como “pássaro novo”. Talvez bridd era como diziam aos filhotes dos pássaros, ou seja, o bridd era o filhotinho do fugol. Só isso –ai de mim! – posso dizer sobre o inglês bird. Mas, vendo agora o alemão Vogel, vemos que aquele Old english que dizia fugol está muito próximo do gótico fugl, de onde provém o alemão Vogel. Salvo engano, esse -l na terminação da palavra em alemão é uma espécie de diminutivo. Lembro-me de um amigo bávaro que me ensinava algumas coisas sobre o alemão falado na sua terra natal: o que no alemão padrão hoje em dia diz-se Mädchen (senhorita, jovemzinha), com essa terminação -chen indicando o diminutivo, na Bavária diz-se Mädchel, com esse –chel fazendo de diminutivo. Parece pois que em Vogel, fugol e fugl já está implícito o diminutivo, o pássaro já é passarinho... Só posso desculpar-me por tanta conjectura e míngua de certeza no respeitante aos germânicos.

Chega ao fim essa minha ornitolingüística expedição, pois! Deixo, isso sim, o pensamento que desencadeou toda essa curiosidade: o passarinho na gaiola canta, não de prazer, mas de raiva. Não prendamos, ó leitor, os uccellos, deixemo-los gorjear! E deixo também esse estribilho, que ouvi quando era pequenino e morava no Chile:

Chiu, chiu chiu chiu,

chiu, chiu, chiu, cha

canta, canta, pajarito

que tu cantar me alegra el corazón!

Ciao!

Rico.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O reino imaginário de cada um

Muita gente na infância se deparou com histórias de reinos. Mágicos, perdidos, de todas as espécies, tais reinos povoaram as mentes de milhões de pessoas que se expuseram a relatos orais, escritos e audiovisuais. Será que as pessoas tiveram e/ou têm algum reino predileto dentre aqueles que puderam conhecer? Pergunto-me e imagino-me perguntando para as pessoas. “Escolher o reino de Deus não vale” –dir-lhes-ia eu–, porque quem é cristão o tem por coisa verdadeira e, segundo a doutrina, vai-se viver nele e, por tanto, não é um reino ‘imaginário’ ”.

Eu mesmo já não me lembro de qual reino me encantou quando foi a minha vez. Vagamente tenho imagens de um desenho animado do Rei Artur, outro desenho do reino onde Robin Hood fazia das suas. Depois, há uns anos, chamou-me a atenção o despótico reino inglês pintado pelo filme Coração Valente. Fui, pois, pobre de reinos na infância, ou a minha memória foi-me privando deles. Inclino-me à síntese destas hipóteses: pobreza original de reinos, esquecimento de alguns dos poucos alguma vez possuídos. Não sei se essa “desnutrição infantil” pode-me ter causado algum dano; seja recalque ou idéia fixa, vou escolher esse reino agora, porque me deparei com um que realmente me causou um encantamento, despertou-me simpatia e admiração. Assim, aproveito para falar desse reino e indicar ao leitor o livro em que me deparei com ele.

Houve, ao redor do ano 1100 e seguintes, um reino chamado Normandia das duas Sicílias. Ele resultou da invasão do mediterrâneo feita pelos normandos. Paulatinamente este povo vai tomando regiões da extensão de terra que hoje conhecemos por Itália. Tomam Sicília, depois Reggio, logo Bari. Forma-se, pois, esse reino, Normandia das duas Sicílias, e nele dão-se vários prodígios, dignos de orgulho dessa nossa tão vituperada espécie humana. Eis que nesse reino convivem normandos, sicilianos, bizantinos e muçulmanos. Mas “veja bem”, eles con-vivem. E mais! A chancelaria real tem como idiomas oficiais nada mais e nada menos que o latim, o grego e o árabe. O reino torna-se logo um centro de tradução do grego e do árabe, a arquitetura combina elementos romano-góticos cristãos, tradições bizantinas e muçulmanas. Segundo o autor do livro do qual tiro tudo isto, Jacques LeGoff, restam como monumentos dessa interação as igrejas de Palermo, Cefalu, e Monreale. Ora –e aqui fala a minha imaginação–, se na arquitetura, uma bela arte, produziram-se empreendimentos dessa beleza, o que se terá então produzido no campo das artes “práticas”, como, por exemplo, a culinária?! Será que uma dona normanda não ia à janela da vizinha bizantina e, papo-vai-papo-vem, acontecia um intercâmbio de receitas? Hummm! Isso tem que ter acontecido! E o marido normando chegava em casa e saboreava um tempero diferente, na costela, no pão, num doce...

Será que –minha imaginação ainda...– o filho do vizinho muçulmano não dava uma olhada dissimulada para a filha do vizinho siciliano e –por Alá!-- esta dava uma piscadela, também dissimulada? E, tudo mui dissimuladamente, o nosso jovem muçulmano tangia o alaúde antes da oração do pôr-do-sol, enquanto a nossa jovem siciliana ouvia ao longe? E ainda, o mais dissimuladamente possível, não será que os nossos jovens deram uma fugida numa noite sem luar e se encontraram... e desse encontro nasceu uma linda siciliano-muçulmana, que, na flor da idade, derrubava sicilianos, muçulmanos, bizantinos e normandos à caminho da fonte d’água? Ah! mas isso deve ter acontecido sim! E os suspiros por essa mocinha devem estar ainda gravados nas rochas, num pedaço de cera, numa tábua, o seja lá no que for! Mas há de estar lá, nalgum reduto arqueológico das aspirações amorosas...

Continuando a ler em LeGoff sobre esse reino, a minha bolha-imaginativa explode... novas invasões ocorrem pelo ano 1266, os franceses se apoderam do reino. E este não viveu “feliz para sempre”. Tudo bem, sabemos que existiu e o que foi, e, mui aristotelicamente, o que nele “poderia ter acontecido”. Com isso me basta, minha carência de reino encantado foi saciada e o leitor pelo menos “ouviu falar” desse reino e da obra interessantíssima pela qual eu vim saber da sua existência. É isso, pois! Vale a pena ler A civilização medieval do ocidente, de Jacques LeGoff: nesta encontram-se os mais variados reinos, para todos os gostos –despóticos, cristãos, “bárbaros”– e, ao mesmo tempo, vai-se acrescendo aquela sensação de que a “idade das trevas” é a nossa: nunca houve tanta luz –elétrica!-- e ao mesmo tempo tanta escuridão, espiritual, política, moral... Fique o leitor com esse esboço de reino encantado e com essa sugestão de leitura.

Até a próxima!

Rico.